• Joana Câncio

Também isto passará

Atualizado: Mai 2

Os grandes quando estão afastados perguntam um pelo outro, quando estão juntos não se suportam. Rezo para que sejam daqueles casos em que quando forem mais velhos não vivam um sem outro.




Estava a dobrar a roupa interior cá de casa, uma tarefa que lamentavelmente me rouba uns 57 minutos por semana, ao som dos mais velhos constantemente a discutir e a ver o bebé satisfeito a deitar os cereais ao chão enquanto dava uns gritinhos mal amanhados que aprendeu há dois dias com os irmãos e decidi escrever. A vida com crianças é muito isto, não é? Pelo menos nos raros momentos em que conseguimos segurar a emoção antes de começar a pôr todos no lugar.


Os grandes quando estão afastados perguntam um pelo outro, quando estão juntos não se suportam. Rezo para que sejam daqueles casos em que quando forem mais velhos não vivam um sem outro. Penso muito nisso, quero ter uma família crescida que se apoie e que se telefone quando precisa de um conselho ou de contar uma novidade. Neste momento vivo no meio de amuos , insatisfação e discórdia.


Aprendi como lidar com tudo isto. Coloco-me à parte mas envolvida. Respiro sempre antes de reagir. Tomo consciência de que o que estou a sentir é apenas uma emoção e não preciso de reagir a tudo o que acontece. Ok. A sério, ok! É mesmo simples! Agora vamos aos factos: eu não sei como é aí em casa (mas faço uma ideia :).


Desafio: Os miúdos ou estão insatisfeitos ou se contentam com tudo.


Solução: O meu bem estar e a minha sanidade e paz interior não dependerem das situações externas. Eu sou luz e luz permanecerei.


Apanhanço na curva: A questão é que na teoria isto é ouro sobre azul. Quando eu testemunho um acontecimento eu sou presença pura. Não sou parte dele. Assim, eu consigo distanciar-me da emoção - e consequente reação - e empatizar com quem tenho à minha frente e consequentemente ser até um veículo para a solução. A questão ainda mais pertinente é que isto acontece realmente uma vez num ano, mas é assim: nessa vez, eu sou a melhor mãe do mundo e sinto-me capaz de dominar a terra das mães em luta. Passados dois segundos acontece outra e eu, como ainda estou a refastelar-me egoicamente na espetacularidade da minha postura, sou completamente apanhada na curva e sai um grito maior que o do Hulk. Caramba, podem estar calados para eu estar em paz a gozar este heróico momento?


Isto resume muito o dia a dia de uma mãe com filhos que quer ser pessoa e mulher e ser consciente em evolução e sintonia com o Universo mas, que por tanto querer, acaba por se sentir a falhar na maior parte das vezes.


Dica Luminosa: Respirar. Respirar. Respirar. E quando isso não resulta, respirar ainda mais. Arejar a cabeça, meditar, praticar desporto… Tomar um banho e fazer a depilação. E quando não dá para fazer nada disto, porque eu estive muitos meses em que tomar banho era um desafio diário e comer era tipo cãozinho abandonado nas traseiras de um restaurante a fugir aos empregados, é mesmo ser forte e aguentar, porque há uma coisa que aprendi e que me salva todos os dias:


“Também isto passará.”


E, apesar de ter de me reconstruir muitas vezes e perdoar mais vezes ainda, não há um dia que passe em que não pense que um dia, quando for velhinha, vou ter tantas saudades destes momentos e que, apesar de andar loucamente esgotada e de não ver grande solução para além de continuar a limpar, arrumar, dar banhos, cozinhar e limpar… podia ter aproveitado melhor e relativizado mais. Mas não consigo. Talvez quando for velhinha me lembre também que hoje dei o meu melhor e que de facto não tinha mesmo alternativa. E que, apesar das saudades, possa sentir que fui uma grande mulher e que criei estes filhos com tudo o que tenho e tudo o que sou, ao lado de um homem que todos os dias nos escolhe e dá mais do que o seu melhor.

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